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Características socioeconômicas de moradias influenciam a saúde da população

A influência das características de determinado lugar na saúde das pessoas que ali habitam foi o tema da tese de doutorado da médica epidemiologista Simone Maria dos Santos no Programa de Saúde Pública da ENSP. O trabalho se caracterizou por avaliar como o espaço urbano se relaciona com os problemas de saúde, especificamente com a auto-avaliação de saúde. A pesquisa, que visa à orientação de políticas públicas, corroborou a hipótese de que as características socioeconômicas do local de residência influenciam a saúde da população.

'A Importância do Contexto Social de Moradia na Auto-Avaliação de Saúde' é o título da tese, que foi composta de três artigos. De acordo com Simone, cuja área de atuação dentro da saúde pública é a epidemiologia, um dos aspectos a serem considerados na distribuição das doenças na população é o lugar onde acontecem os problemas de saúde. No entanto, nos últimos 30 anos, essa área da saúde esteve mais focada nos fatores de risco para doenças identificadas dentre as características que os indivíduos apresentavam, embora, na sua origem, a epidemiologia enfocasse a população, os problemas que a afetavam e as condições de vida relacionadas à distribuição populacional.

Porém, de acordo com Simone, há mais de dez anos está existindo uma retomada da importância dos fatores do contexto da vida no desenrolar dos problemas de saúde. "Meu trabalho se insere nessa perspectiva, da relação do espaço urbano com os problemas de saúde", revelou. O evento de saúde estudado foi a auto-avaliação de saúde. Ela é feita por meio de uma pergunta simples, em que os indivíduos referem se sua saúde está muito boa, boa, regular ou ruim, considerando seu estado em relação a outras pessoas da mesma idade. A pesquisadora utilizou informações do Estudo 'Pró-Saúde', desenvolvido pelo Instituto de Medicina Social da UERJ, que acompanha as condições de saúde de funcionários da universidade. "A fase que utilizei foi realizada em 1999. A partir dela, tem se produzido diversos estudos sobre a saúde de adultos e fatores de risco para doenças cardiovasculares, hipertensão, fatores associados ao trabalho e outros. Entretanto, ainda não havia sido feita uma abordagem com relação ao local de moradia", observou.

As análises se restringiram às informações de participantes, que moravam no município do Rio de Janeiro, para estudar características socioeconômicas das suas áreas de moradia, relacionando-as a auto-avaliação da saúde. No entanto, os estudos sobre o impacto do local de moradia normalmente utilizam áreas administrativas, como distritos, bairros e setores censitários (polígono de área que corresponde à unidade mínima de informação dos censos populacionais que o IBGE utiliza para coletar as informações).

Sendo assim, Simone se deparou com uma questão relacionada ao variado perfil social e tamanho populacional dos bairros. "No Rio, temos bairros com uma população gigantesca e outros minúsculos. A cidade é um mosaico; não houve uma segregação social padronizada, e as favelas não estão distantes dos centros urbanos. Temos áreas ricas ao lado de áreas pobres dentro de um mesmo bairro, e, por isso, a unidade espacial de bairro dificulta o delineamento do perfil socioeconômico de sua população. Então, uma das novidades do trabalho é o recorte dessas áreas geográficas em vizinhanças. Traçamos uma área intermediária, um conjunto de setores censitários com características socioeconômicas homogêneas, com um mínimo populacional estabelecido de cinco mil habitantes, que possibilitou reconhecermos os diferentes perfis dentro dos bairros. A partir desse novo recorte, foi possível evidenciar que há nuances sociais que não são percebidas, como por exemplo, o bairro Rocinha, que apresentou um conjunto de sete vizinhanças com perfis distintos".


Metodologia criada na tese permite dar seqüência a esse tipo de estudo

Desse modo, a cidade foi dividida em 794 vizinhanças a partir de quatro indicadores: proporção de crianças de 0 a 4 anos de idade, renda média dos responsáveis pelos domicílios, número de anos de estudo e número médio de pessoas por domicílios. O primeiro artigo da tese foi uma revisão sobre a influência do contexto de moradia e quais características específicas desse contexto influenciavam a auto-avaliação de saúde. O segundo permitiu o recorte do município em vizinhanças e, tendo a delimitação das vizinhanças, Simone chegou ao artigo final, que junta as características da vizinhança de moradia e a auto-avaliação de saúde dos indivíduos que participaram do Estudo Pró-Saúde.

"Esses modelos demonstram que realmente o local de moradia faz diferença. Um indivíduo que tem a mesma faixa etária, renda individual, escolaridade e sexo, se mora em uma vizinhança que tem uma renda no tercil médio e média de moradores por domicílios maior do que três, tem chance maior de avaliar sua saúde como ruim do que outro com as mesmas características individuais que mora em um local de renda mais alta e com média menor de moradores por domicílio. Parece óbvio que as áreas mais empobrecidas têm maiores problemas de saúde, mas, no fundo, o objetivo de todo esse tipo de estudo é orientar políticas públicas. Além das características socioeconômicas, há estudos que mostram que características psicossociais e físicas de uma área, como a oferta de serviços de saúde, podem ampliar ou minimizar os problemas de saúde".

Simone, que foi orientada pela pesquisadora Dora Chór, do Departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos e pelo pesquisador Guilherme Werneck, atualmente, do Departamento de Endemias Samuel Pessoa, ambos da ENSP, revela que, no Brasil, está começando a se criar condições para dar seqüência a esse tipo de estudo. "Um dos problemas era o recorte de área, e a metodologia proposta na tese vem como uma alternativa. Como utilizamos um software livre nacional - o TerraView-, que é gratuito, as pessoas podem usar novos parâmetros para delimitar vizinhanças, conforme o problema que estão analisando, mudar os indicadores e utilizá-los para novos estudos. Acho que essa é uma das contribuições importantes da tese. A expectativa é que seja possível aprofundar a pesquisa sobre fatores contextuais que são, cada vez mais, reconhecidos como tendo influência na saúde individual. A epidemiologia, ao incorporar o contexto geográfico, quer mostrar o reflexo dos determinantes sociais no espaço urbano e seu impacto nas condições de vida das pessoas, principalmente nas situações de saúde. Isso permite direcionar as políticas de atenção e de promoção da saúde em áreas e grupos prioritários, auxiliando a criação de políticas públicas com enfoque populacional, pois existe um certo esgotamento na responsabilização do individuo sobre suas decisões, como se a definição de hábitos relacionados à saúde fosse independente do grupo, do contexto social no qual o indivíduo está inserido .

Fonte: Informe ENSP
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